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18.jpgLimpa, renovável e gratuita, a energia eólica é a fonte alternativa da vez. Bom para o Nordeste, que tem as melhores jazidas de vento do Brasil.
Ana Cláudia Dolores

Escassez e alto valor dos combustíveis fósseis. Conflitos políticos internacionais que ameaçam a economia mundial. Gravidade dos problemas ambientais causados pela construção de hidrelétricas. Os sintomas do que pode vir a ser uma crise energética generalizada já apareceram. Mas ainda é possível reverter esse quadro. Diversificar a matriz energética, utilizando fontes alternativas de energia, é uma solução. E é nesse contexto que o interesse pelo uso de energia eólica vem crescendo. As vantagens explicam o porquê: não polui; é renovável; a matéria-prima é encontrada na natureza sem custos; e sua oferta independe de condições político-econômicas.

Alguns países já enxergaram o potencial dessa fonte de energia limpa. A China vai instalar 100 mil MW de energia eólica até 2030, o que significa todo o parque gerador de energia brasileiro. O país asiático, que está experimentando um crescimento vertiginoso de sua economia, sabe que para manter esse desempenho é preciso ter fontes de energia confiáveis. O mesmo pensa a Alemanha, que já emprega cerca de 300 mil pessoas no setor de energia renovável, segundo maior consumidor de aço do país depois da indústria automobilística.

O Brasil, sobretudo o Nordeste, tem os dois principais ingredientes para fazer parte dessa vanguarda: tecnologia e matéria-prima. “O Nordeste tem as melhores jazidas de vento do Brasil. E é nos meses de julho a outubro, quando há a seca no Rio São Francisco, que aparecem os melhores ventos. Isso quer dizer que o Nordeste pode ser a região do planeta com o maior potencial de energia renovável, podendo sobreviver de água e vento”, afirma o diretor-presidente da Eólica Tecnologia e vice-presidente da World Wind Energy Association, com sede na Alemanha, Everaldo Feitosa.

Segundo o especialista, empresários e poder público estão atentos a essas vantagens e já começaram a investir na Região. “Está acontecendo uma revolução silenciosa da energia eólica no Brasil e isso começa pelo Nordeste. Com imensas jazidas de vento em complementaridade com o potencial hídrico, está havendo uma corrida para instalar projetos na Região, com boas perspectivas econômicas”, atesta.

Somente através do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), instituído em 2002 pelo Governo Federal, estão sendo implantados 1.423 MW de energia eólica no Brasil, sendo quase 1.000 MW no Nordeste. Essa energia está sendo produzida por empresas privadas para ser vendida à Eletrobrás. Até 2009, esses investidores devem aplicar R$ 5 bilhões em projetos eólicos no Nordeste. Para se ter uma idéia, Essa energia que está sendo gerada na Região é suficiente para abastecer 1,6 milhão de famílias, com consumo médio de 250 KWh/mês, sem limite de tempo e sem risco de apagões, por ser uma fonte renovável de energia. No Nordeste, esses projetos estão sendo instalados no Ceará e no Rio Grande do Norte, onde os ventos são de melhor qualidade.

NOVOS NEGÓCIOS

A capacidade tecnológica e a melhoria da infra-estrutura logística têm atraído, também, indústrias de produção de componentes eólicos para o Nordeste. É o caso do Complexo Industrial e Portuário de Suape, em Pernambuco, que está consolidando um pólo de geração de energia eólica com a chegada de players mundiais como a Impsa, a Gonvarri e a Tecsis. “O porto de Suape tem grandes vantagens do ponto de vista logístico, com uma excelente infra-estrutura para realizar importações e exportações. Tem um grande diferencial, pois está próximo dos 70% do potencial eólico brasileiro que se encontra no Nordeste, além de ser um dos portos multimodais mais importantes da Região”, respalda o diretor de operações da Impsa Wind, Gerald Katz.

25.jpgA Impsa é a primeira a se instalar no complexo, iniciando as operações em setembro de 2008. O grupo está investindo R$ 220 milhões na nova unidade industrial para produzir geradores e gôndolas para turbinas eólicas. A fábrica, com capacidade para produzir 200 equipamentos de geração de energia eólica por ano, dobrará a produção brasileira de aerogeradores. Conforme a demanda, a planta tem capacidade de ampliar sua produção anual para 300 aerogeradores, atendendo os mercados local e regional. “A prioridade da Impsa é a demanda interna do Brasil. No próximo ano, 100% da produção será destinada aos projetos nacionais do Proinfa. No futuro, a expectativa é exportar 40% para o resto do mundo”, antecipa Katz.

Além de abrir as portas para a formação de um cluster em Suape, a argentina Impsa também está ajudando a dinamizar a economia local com a geração de empregos. Para iniciar as operações, foram contratados 300 funcionários, mas a previsão é gerar 1,6 mil postos diretos e indiretos até o final da terceira etapa de produção. A siderúrgica espanhola Gonvarri, que vai construir torres eólicas em Suape, investindo R$ 60 milhões nessa planta industrial, promete gerar 260 empregos diretos até 2014. Já a brasileira Tecsis, que estuda a implantação de uma indústria de pás eólicas, também em Suape, ainda não sabe quanto poderia investir na nova unidade no estado, mas estima que seria capaz de ofertar cerca de três mil empregos diretos quando estivesse em plena carga, a partir de 2011.

Com 11 unidades no Brasil, a Tecsis tem planos de ampliar sua presença no território nacional, expandindo para as faixas litorâneas. É que as pás produzidas pela empresa estão ganhando dimensões maiores, superando os 50 metros de comprimento, o que torna inviável o transporte por vias terrestres. “Faz parte da estratégia da empresa ter uma unidade no litoral. Hoje, o principal porto por onde exportamos é Santos, mas há uma preocupação se o porto vai conseguir dar vazão ao grande fluxo de cargas que tem atualmente. Por isso, Suape se torna interessante nesse projeto”, explica o gerente de planejamento estratégico da Tecsis, Fernando Pretel.

O que essas e outras empresas precisam para apostar de vez as fichas no Nordeste é de uma posição mais firme do Governo brasileiro em relação à regulamentação do uso da energia eólica. “É preciso dar perspectivas de condições de a energia eólica poder competir economicamente com outras fontes e isso passa por uma decisão política de mudar a legislação vigente”, pontua o professor Everaldo Feitosa.

“Quando os governos do Estado e Federal definirem que a energia eólica faz parte da matriz energética brasileira, a Tecsis, que destina 100% da produção para exportação, poderia começar a fornecer seus produtos ao Brasil”, declara Fernando Pretel. A Impsa também espera que bons ventos soprem a favor de seus negócios no Nordeste. “Confiamos no Brasil e numa política sustentável que apresente condições que viabilizem a ampliação das centrais eólicas já existentes e possibilitem a instalação de novos parques eólicos, aproveitando, assim, o enorme potencial da Região. A empresa conta com um plano de expansão, acreditando nas perspectivas futuras para se consolidar, garantir as fontes de trabalho e expandir a produção”, completa Gerald Katz.

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