Com encomendas da Petrobras, antigos estaleiros crescem e novos construtores nascem grandes
Giovanni Sandes

Na segunda metade da década de 80, uma forte retração atingiu a indústria naval em todo o mundo. Na época, os potenciais clientes preferiam fretar navios existentes a encomendar novas embarcações. Como resultado, claro, os preços caíram e o interesse dos investidores minguou.
No Brasil, os estaleiros passaram a sobreviver de reparos e construção de navios de menor porte. Depois de mais de uma década, no entanto, a indústria nacional iniciou uma lenta reativação, que ganhou corpo ano passado, com as primeiras 26 encomendas de navios de
grande porte da Transpetro, subsidiária da Petrobras.
E um novo pacote, anunciado em maio passado, vai consolidar a retomada dos antigos estaleiros e dos novos players, com presença hoje em oito estados brasileiros. O setor recebeu muito bem o anúncio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre as novas 146 unidades de apoio e exploração marítima de petróleo da Petrobras, entre outras demandas, dentro de um pacote estimado em US$ 5 bilhões.
Mas a atual carteira de encomendas desses estaleiros já apresenta clientes privados nacionais e internacionais. O presidente do Sindicato da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinval), Ariovaldo Rocha, conta que até o incentivo da Petrobras, o recrudescimento
do mercado naval provocou uma canibalização no setor, que “devorou” os primeiros operadores brasileiros.
“Essa retração provocou fusões e aquisições entre empresas de transporte marítimo internacionais. As principais operadoras brasileiras foram adquiridas pelas estrangeiras”, conta. Ariovaldo diz que a Petrobras, com seu estímulo à padronização e certificação técnica na produção industrial, forneceu o fôlego necessário para a retomada do setor naval brasileiro.
“Essas decisões foram ampliadas a partir 2002, com a constatação de que o mercado mundial de construção naval entrava numa fase de ocupação completa dos estaleiros, elevando os preços e prazos de entrega de navios e plataformas de petróleo, diante da demanda provocada pela produção de petróleo offshore e da expansão da economia mundial, após quase duas décadas de fraco desempenho”, explica.
O Rio de Janeiro, com sua tradição na área, é quem mais concentra essas empresas gigantes – são seis grandes construtores navais. É lá também onde fica o Eisa (Estaleiro Ilha), atual líder do mercado nacional, com uma área total de 150 mil metros quadrados, área coberta de 55 mil m² e capacidade de processamento de 52 mil toneladas de aço por ano.
A estatal venezuelana PDVSA encomendou dez navios petroleiros ao Eisa, que também fechou contrato de cinco navios porta-contêineres para a Log In (Logística Intermodal) - companhia de Logística com participação acionária da Vale do Rio Doce - e dois navios para a Laurin do Brasil Navegação. O Ilha tem ocupação plena garantida até 2013. O gigante EAS (Estaleiro Atlântico Sul), em construção em Pernambuco, será o maior do Hemisfério
Sul.
O EAS tem 1,620 milhão de m² de área total, com 130 mil m² de área coberta e praticamente o dobro da capacidade de processamento de aço do hoje líder Eisa: 100 mil toneladas anuais de aço. Além de ter arrebatado o lote de dez petroleiros tipo Suezmax da primeira encomenda
da Transpetro por US$ 1,2 bilhão, o EAS já tem pedidos de dois tankers do tipo VLCC (Very Large Crude Carrier) para a espanhola Noroil Navegação, do grupo Repsol YPF, ao custo de US$ 424 milhões. Esses navios serão arrendados pela Noroil à Petrobras.
O primeiro tanker será entregue em 2012 e o segundo, em 2015. Entre as encomendas ao Atlântico Sul ainda há a construção do casco da plataforma P-55, da Petrobras, um contrato de US$ 392,6 milhões. A carteira de encomendas do EAS representa 55% de sua capacidade.

No dia 23 de maio, quando anunciadas as novas encomendas da estatal brasileira de petróleo, o presidente da companhia, José Sérgio Gabrielli, comentou que “muita gente duvidava, há cinco anos, que nós conseguiríamos, que seríamos capazes de construir plataformas aqui no
Brasil.” O governo federal orienta a Petrobras a buscar no mercado brasileiro as soluções de equipamentos, materiais, serviços e recursos humanos para as suas atividades. É isso que estamos fazendo”, acentuou.
Na ocasião, além dos 146 navios de apoio e de engenharia submarina, em 24 licitações, um conjunto de cinco plataformas (duas em licitação e três a licitar) e 40 plataformas de perfuração, além da segunda etapa do Programa de Modernização e Expansão da Frota de Petroleiros (Promef), agora com 23 petroleiros de médio e grande porte.
E é o chamado Promef II que mais interessa ao EAS, conforme destacou o presidente do Estaleiro, Paulo César Haddad, em coletiva de imprensa logo após o anúncio do novo pacote da Transpetro. Somente nessa encomenda, a subsidiária da Petrobras licitará quatro Suezmax, três navios tipo Aframax, oito navios de produtos, cinco navios gaseiros (para transporte do gás liquefeito de petróleo), mais três navios para transporte de bunker (combustível de embarcações).
Na leitura de Haddad, inclusive, por ter atingido uma curva de aprendizado, após a construção dos dez primeiros Suezmax, o EAS estará pronto para cumprir com agilidade a entrega dos novos quatro navios desse tipo incluídos no Promef II.
O presidente do Sinaval diz, com base em dados compilados pelo Departamento do Fundo de Marinha Mercante (FMM) junto ao Syndarma (Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima), que, até 2013, haverá encomendas de US$ 2,3 bilhões. Essa é a soma, em valores estimados, de 19 navios porta-contêineres (US$ 1,3 bilhão), 16 graneleiros (US$ 750 milhões), três navios químicos (US$ 238 milhões) e três navios tanques (US$ 33 milhões).

Em dez anos, desde o início da recuperação da indústria da construção naval no Brasil, a capacidade produtiva do setor evoluiu a ponto de entregar, apenas entre 2006 e o ano passado, 34 embarcações e navios, além de plataformas de petróleo. Desde a retomada dos estaleiros, em 1998, a utilização de mão-de-obra recuou apenas no início do período, para depois experimentar uma ascensão ininterrupta.
São 40 mil empregos diretos no setor, atualmente. E as novas encomendas da Transpetro, segundo a sua controladora, Petrobras, têm previsão estimada de gerar 20 mil empregos até 2015, além de consumir 250 mil toneladas de aço. Em 1999, 2.300 pessoas atuavam no setor, mas esse número caiu para 1.900 no ano seguinte.

A partir de então, os aumentos foram contabilizados na casa das milhares de vagas. Já eram quatro mil trabalhadores em 2001, cifra que saltou, nos três anos seguintes, para 6.500 vagas, 7.500 empregos e ultrapassou uma dezena de milhar em 2004, ao bater os 12.500 empregados.
Esses são números do Sindicato da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinval). A entidade apontou ainda que nos anos de 2005 e 2006, o número de pessoas atuando no setor passou de 14 mil para 19 mil. O ritmo pesado da construção está presente em vários estaleiros. O Eisa (Estaleiro Ilha), no Rio de Janeiro, tem ocupação plena até 100%, com 2.500 empregados.
O Quip, estaleiro que surgiu no Rio Grande do Sul para fazer frente à encomenda de módulos da plataforma P-53, da Petrobras, pretende concluir o trabalho até julho. Por isso, o Quip trabalha desde janeiro passado em três turnos, mobilizando mais de três mil trabalhadores. O Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em construção em Pernambuco, tem previsão de gerar cinco mil empregos diretos e duas mil vagas no pico das obras. Até maio passado, eram 1.300 funcionários nas áreas industrial e administrativa do EAS. Mas é interessante notar, entretanto, que a cadeia da produção naval mobiliza fornecedores e uma infinidade de prestadores de serviços.
No caso do Atlântico Sul, há expectativa de geração de 15 mil empregos indiretos. “O Brasil realizou uma inovação no uso dos arranjos produtivos locais com o uso dinâmico da capacidade produtiva dos estaleiros de uma mesma região”, comenta o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha.
No meio da escalada de recuperação, havia a sinalização de que faltariam profissionais
qualificados. A partir daí, foi desenhado em parceria com a Petrobras o Prominp (Programa de
Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural) e os investidores também buscaram parcerias com o Senai (Serviço Nacional da Indústria), por exemplo. “Os estaleiros desenvolveram suas próprias unidades de treinamento e qualificação.
Com essa rede em operação, um anunciado ‘apagão’ de soldadores qualificados foi evitado”, afirma Ariovaldo. O Estaleiro Atlântico Sul já treinou e capacitou três turmas de funcionários para a área industrial, uma com 342 pessoas, outra com 160 e a última com 261 empregados. O EAS construiu a Escola Nascedouro de Talentos, doada à prefeitura do município pernambucano de Ipojuca, onde está localizada, e o Centro de Treinamento Engenheiro Francisco C. E. Vasconcelos, doado ao governo Estadual. O custo conjunto das duas escolas foi de R$ 3,6 milhões.
Eng. Anélio Spínola Sábado, 2 de Agosto de 2008
A revitalização da Construção Naval é muito bom para os profissionais que já trabalharam na Const.Naval (como Eu )e ótima oportunidade para formar novos profissionais, como soldadores, maçariquiros, etc., e oferecer aos jovens novas oportunidades para iniciar.
Fico muito satisfeito. Com certeza esta revitalização impulsionará vários setores da Economia Nacional.
paulo roberto bonjour Domingo, 3 de Agosto de 2008
Acessei o site para me atualizar e saber das novas tendências do setor. Conclui o curso Soldador de Tubulação no Prominp/Petrobrás este ano para me qualificar na área e atuo na solda a quase 2 anos. Sendo que busco algo melhor e observo um pouco de dificuldade no ramo, por mais informações e comentários eté mesmo reportagens que hoje estamos tendo é complicado. Deveria existir um site “específico” para os alunos/profissionais para que tenham oportunidade nas pequenas, médias e grandes empresas da área, hoje tão almejada.
Procuro atuar no ramo e área escolhida, se souberem de algo para me indicar ? Agradeceria!
Agradeço a oportunidade de expressar o que acho…
adolfo Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
Só tenho que aplaudir o trabalho de vcs, é imprescindível as oportunidades para os menos favorecidos todos temos direito perante a Lei parabens a todos.que contribuem com esta grande obra empreendedora. isto é muito IMPORTANTE.
cordialmente , josafa adolfo da silva
João Correia Silva Neto Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
Prezados Senhores,
Estou cursando mestrado na área de ciências políticas na Havaii University - Estados Unidos. A minha tese, que se acha em fase de preparo versa sobre a “Marinha do Brasil” e gostaria de desenvolver um capítulo sobre a História da Construção Naval no Brasil e o seu momento atual. Se possível, enviar-me material bibliografia referente a minha tese, ficarei grato. Esse material poderá ser enviado para residência de meu pai em Brasília, a saber: MSPW Q. 17 - Conj.14 Lote 3 Casa D - Brasília - DF - CEP 71741-174. Antecipadamente, agradeço a atenção.
João Correia S Neto.
Aldo Cavalcanti Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Também é importante saber o salário que será pago a esses trabalhadores.
Tenho informações que aqui em Pernambuco, o estaleiro está pagando apenas 460,00 reais para um soldador. Esse salário é um absurdo.
O número de empregos gerados servem para campanha política do governo, porém precisam gerar melhor qualidade de vida para os trabalhadores.
Tenho certeza, que com apenas 460,00 reais de salário para um trabalhador ( soldador) daqui do Estaleiro em Pernambuco, em pouco tempo, estaremos observendo o crescimento de novas favelas na região.
Não acredito que construir favelas seja desenvolvimento!