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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008 Energia, Fevereiro/Março Sem Comentários

Por: Giovanne Sandes
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Acionamento das termelétricas a gás para garantir o fornecimento de energia elétrica no País complica a negociação dos contratos de aumento de oferta com os estados

Para citar uma crise brasileira, às vezes tem-se a impressão de que basta escolher um setor ou área. Periodicamente, o debate recai sobre gargalos em temas como logística, taxa de câmbio e uma atividade em crise. Uma das crises que promete ser das mais duradouras é a energética. E o gás natural para a indústria é o novo foco de crise. Isso porque, em novembro de 2007, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou a necessidade de acionamento das térmicas brasileiras no início deste ano, alertando sobre o risco de desabastecimento tanto do gás veicular, o GNV, quanto do industrial. Para a Petrobras, o cenário é outro: o nó, longe de estar ligado à manutenção da oferta atual do gás, seria oferecer um extra, um volume maior do insumo. Nos estados, contudo, o laço é mais complicado do que a estatal divulgou.

Há três anos, a Petrobras não possuía um contrato formal com as distribuidoras estaduais do combustível fóssil. No dia 5 de dezembro passado, a companhia firmou com a Bahiagás (Companhia de Gás da Bahia), distribuidora do governo baiano, um contrato que servirá como espelho para os outros estados. A Bahia achou positiva a composição do acordo, que introduziu novas modalidades de fornecimento: firme inflexível, firme flexível e interruptível. Nesses dois últimos modelos é onde está o nó da Petrobras, literalmente se a estatal sentir necessidade, pode apertar o laço e interromper o abastecimento.

Além disso, nesse primeiro contrato com a Bahiagás, já foi anunciado um reajuste de 27% a ser diluído nos próximos dois anos, sendo o primeiro impacto em fevereiro de 2008, entre 4% e 5%. A nova modelagem acordada com a Bahia terá duas parcelas com regras diferentes para a venda do gás: uma continuará corrigida trimestralmente, com base em cotações de uma cesta de óleos combustíveis no mercado internacional; a outra será fixa e a ela será aplicado, anualmente, o IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado).

Na Bahia, o contrato já assinado prevê a elevação de 3,3 milhões de metros cúbicos diários de gás (m³/dia) para 3,5 milhões de m³/dia, volume que não poderá ser suspenso (é o firme inflexível). Além disso, os baianos terão ainda 500 mil metros cúbicos no regime firme flexível, o que implica dizer que havendo interrupção no fornecimento de gás natural, a Petrobras arcará com o custo adicional para a utilização de uma alternativa energética (tendo como limite o preço do óleo combustível). Outro 1,1 milhão de m³/dia é o volume interruptível oferecido à Bahia, gás que simplesmente pode ter seu fornecimento cortado para compensar o risco, os preços poderão ter desconto de até 15%.

Com um complexo industrial portuário constantemente em obras, devido à instalação de novas indústrias em Suape, Pernambuco verá sua demanda por gás natural crescer exponencialmente nos próximos anos. Somente a Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras e PDVSA, será construída para poder consumir até 4 milhões de metros cúbicos diários de gás. A estatal brasileira, no entanto, projetou o megaempreendimento para não depender do insumo.

O gerente-geral da Refinaria, Ricardo Barreto, explica que a planta de refino terá autonomia de gás. “Ela pode consumir ou não o gás natural. Diria que ela consumirá, mais do que havendo oferta, havendo disponibilidade”, comentou Barreto. A meta da estatal é que a refinaria esteja produzindo já em 2010.

A meta da Copergás era ampliar em 150 mil m³ por dia a oferta de gás natural em Pernambuco para 2008, que hoje é 1,1 milhão m³. Com o cenário negativo, em função da redução dos níveis de água nos reservatórios das hidrelétricas, a Petrobras está destinando o gás natural para acionar as termelétricas. Com isso, a distribuidora pernambucana refez o pleito e pode chegar a 100 mil m³ para este ano e um aumento gradual para atingir 2,45 milhões de m³ até 2012.

Na avaliação do presidente da Copergás, Aldo Guedes, ultrapassado o momento de tensão do setor, haverá mais gás para o Estado. “Vamos ter uma demanda maior em função das fábricas da Novartis (investimento da multinacional na Zona da Mata Norte de Pernambuco, no município de Goiana), do Estaleiro e da Refinaria”, argumenta.

Na avaliação do executivo da Copergás, mesmo se todos os grandes projetos privados no estado saíssem do papel simultaneamente, hoje, a construção e o início da operação variariam de um a dois anos, em média.

Por enquanto, no Nordeste, somente Bahia e Pernambuco manifestaram-se positivamente quanto às novas modalidades de comercialização de gás da Petrobras. Segundo os dois estados, mesmo com a possibilidade de suspensão do fornecimento, a Petrobras aumentará a oferta do gás, frente ao volume hoje entregue pela estatal. Não é isso que ocorre em todos os estados.

Os cearenses não gostaram muito do modelo oferecido pela Petrobras. É que para o estado a estatal federal ofereceu um volume de firme inflexível que, na prática, significa reduzir o gás entregue normalmente, hoje, para o Ceará. Sem contar os 2,8 milhões de metros cúbicos por dia direcionados às térmicas no estado, a Cegás (Companhia de Gás do Ceará) distribui 550 mil m³/dia para fins comerciais. Com a assinatura do contrato, 80% desse volume será firme inflexível, sendo outros 100 mil metros cúbicos diários na modalidade firme flexível podendo ser cortados. O volume de gás restante receberá um acréscimo de oferta para destinação na modalidade interruptível.

“Para nós, não foi muito garantida essa esperança de aumento na oferta de gás. Ela (a Petrobras) só está negociando um volume interruptível para os grandes e futuros clientes”, comenta o presidente da Cegás, José Rêgo Filho.

“Vamos ter uma demanda de gás maior em função das fábricas da Novartis, do Estaleiro e da Refinaria” Aldo Guedes, presidente da Copergás

Histórico

A Petrobras nega que haja uma crise no abastecimento de gás. Mas lembra da crise do setor elétrico ao rememorar o início do incentivo ao consumo do produto. Há pouco mais de três anos, o acordo que havia entre o Brasil e a Bolívia para a exploração do gás daquele país remunerava os brasileiros com 18 milhões de metros cúbicos ao dia. Mas o governo Federal já queria incrementar o volume do gás no Brasil há algum tempo.

“Em 2001, com a crise no setor elétrico brasileiro, foi criado o Programa Prioritário de Termelétricas (PPT), em que o Governo Federal optou pela geração termelétrica a gás natural para a redução à exposição ao risco de falta de energia elétrica. Com isso, as quantidades requeridas com a Bolívia foram incrementadas, chegando ao total de 30 milhões m³/dia de gás, volume válido desde o final de 2004. Com a redução da crise no setor elétrico, uma parcela significativa do gás para as térmicas deixou de ser utilizado. Com isso, a Petrobras iniciou um Plano de Massificação do uso de gás natural, buscando usos não firmes para este combustível”, informa a Petrobras, em nota encaminhada à reportagem da Cais do Porto.com.

Em outubro de 2007, houve um primeiro “apagão” do gás. No dia 21 de novembro, o alerta sobre o risco de um novo apagão foi trazido ao noticiário pelo diretor-geral da agência reguladora, Jerson Kelman, justamente pela baixa quantidade???? Incompleto o texto ou o repórter mandou assim?veja o arquivo!!!

Investimentos vão aumentar a oferta no Nordeste

A Petrobras está buscando formas de acompanhar o crescimento estimado em 9,8% ao ano do consumo brasileiro de gás, até 2012. Em seu plano estratégico para o período, a estatal tem várias metas, duas delas diretamente ligadas ao Nordeste. A primeira é viabilizar a importação de gás natural em navios metaneiros, com duas portas de entrada no país: Rio de Janeiro e Ceará. A outra é a construção do Gasene (Gasoduto Sudeste- Nordeste), para integrar os gasodutos nordestinos à malha nacional e criar uma Rede Básica de Transporte de gás natural no Brasil. Somados os investimentos, o montante atinge a casa dos R$ 9,15 bilhões.

A importação do gás já será iniciada em maio de 2008. O produto virá na forma líquida, depois de resfriado a 160 graus Celsius negativos, em uma apresentação conhecida como GNL (gás natural liquefeito). Para a conversão do GNL novamente para a forma gasosa, a Petrobras já anunciou a instalação de dois terminais de regaseificação. Um será instalado no Rio de Janeiro, ao custo de R$ 2,9 bilhões. O outro ficará no Ceará, ao custo de R$ 1 bilhão.

O terminal da Baía da Guanabara (RJ) terá capacidade para 20 milhões de metros cúbicos de gás por dia (m³/dia). No Porto de Pecém (CE), outros 7 milhões de m³/dia entrarão no país. O presidente da Cegás (Companhia de Gás do Ceará), José do Rego Filho, explica que hoje, no Nordeste, apenas Pernambuco e Paraíba não produzem gás natural. “Mesmo o Ceará produzindo gás, ainda recebe do Rio Grande do Norte. Mas, quando o terminal de regaseificação começar a operar, vamos inverter o fluxo, mandando para o Rio Grande do Norte, podendo chegar até a Paraíba e Pernambuco”, avalia José do Rego.

O consumo brasileiro de gás, nos cálculos da Petrobras, passará de 50 milhões de metros cúbicos diários para 134 milhões de m³/dia, nos próximos cinco anos. Para tanto, o volume de gás produzido no Brasil precisa subir de 28 milhões para 70 milhões de metros cúbicos ao dia. O gás importado da Bolívia atualmente já está no limite da distribuição, 30 milhões de m³/dia, volume consumido no Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país. E serão justamente os terminais de regaseificação que vão garantir o crescimento da importação.

Contudo, para equilibrar a distribuição do gás e ligar o Centro-Sul ao Nordeste, a Petrobras concebeu o Gasene, composto por três gasodutos. A estatal foi motivada pelas descobertas de gás no campo de Mexilhão, no Espírito Santo, e na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. “Esses dois movimentos de descobertas motivaram a Petrobras a instalar o projeto Plangas, com um acompanhamento específico. Decorrente, ainda, da necessidade de suprimento de gás para o Nordeste e da imensa flexibilidade logística que uma malha nacional totalmente integrada daria aos mercados consumidores de gás no Brasil, foi analisado e aprovado o Gasene. Com isso, qualquer novo projeto nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste será analisado de maneira integrada, para verificar o impacto que um novo consumidor acarreta aos demais”, informou através de nota a Petrobras.

O traçado do Gasene tem início com um duto ligando a estação de processamento de gás de Cabiúnas (região norte do Rio de Janeiro) a Vitória (ES). Outro gasoduto ligará Vitória a Cacimbas, também no Espírito Santo. E um terceiro gasoduto levará o insumo de Cacimbas a Catu (BA).

O Gasoduto Cabiúnas - Vitória (Gascav) tem 300 quilômetros de extensão, teve sua construção iniciada em junho de 2006 e, de acordo com a Petrobras, as obras estão em fase de conclusão. O segundo trecho do Gasene, Vitória-Cacimbas, tem 131 quilômetros de extensão e também está em fase de conclusão, informa a Petrobras. O Gasoduto Cacimbas -Catu (Gascac), maior trecho do projeto - com 940 quilômetros - tem conclusão prevista para novembro de 2008. O total a ser investido no Gasene será R$ 5,25 bilhões.

Comentários para “Gás natural: uma crise anunciada”

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