Por: Ana Cláudia Dolores

O Complexo investe em diversificação e atrai empresas mundiais no segmento de combustíveis
Com um parque de tancagem com capacidade para armazenar cerca de 560 mil metros cúbicos de combustíveis e químicos, o porto de Suape, em Pernambuco, a 54 quilômetros do Recife, já se configura como um porto concentrador de cargas, no que diz respeito a granéis líquidos. Com a chegada de empreendimentos estruturadores, como a Refinaria de Petróleo Abreu e Lima, prevista para 2010, e a formação de um pólo petroquímico, já ancorado pela fábrica de resinas PET do Grupo Mossi&Ghisolf (M&G), as empresas que atuam nesse parque se preparam para pegar carona nessa esteira do desenvolvimento.
A movimentação de combustíveis é responsável por cerca de 50% do faturamento e dos negócios de Suape. De acordo com o presidente do porto e secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Fernando Bezerra Coelho, essas operações vão ganhar ainda mais fôlego com a chegada desses empreendimentos. “Sem dúvida, há uma tendência para a ampliação dessas operações com a chegada da Refinaria, que tem a concepção de produzir derivados de petróleo, principalmente o diesel, para atender a todo o mercado do Nordeste”, afirma.
O período de efervescência que Suape está vivenciando tem atraído os olhares de empresários que querem ampliar sua atuação no mercado, a exemplo do grupo Decal. Com um parque de tancagem com capacidade para armazenar 160 mil metros cúbicos de combustíveis, a empresa está apostando suas fichas no crescimento do Complexo Industrial e Portuário. “Viemos para cá por conta de Suape reunir as melhores condições para a gente, além da migração de empresas, que não acontecia em nenhum outro porto”, ressalta o gerente geral da Decal no Brasil, Jorge Lemos.
Além dos investimentos-âncora, a Decal está de olho na cadeia de serviços que está se formando ao redor dessas plantas. “Essas empresas consomem combustível e alguém tem que armazená-lo”, relaciona o empresário. Seguindo o calendário de ampliações dos parques de tancagem em suas cinco unidades no mundo, a Decal planeja crescer, também, em Suape. “Devemos duplicar nossa capacidade de armazenamento entre 2009 e 2010”, anuncia Lemos. “Hoje, investir em Suape está mais claro do que quando começamos. O investimento, agora, é mais simples, porque já temos toda uma infra-estrutura instalada”.
Atualmente, o centro de distribuição da Decal movimenta cerca de US$ 20 mil por dia, resultado das 150 mil toneladas de granéis líquidos, entre derivados claros de petróleo e biocombustíveis, transportadas por navios que fazem o transbordo utilizando os tanques da empresa. Com a duplicação, que deve receber um investimento de cerca de US$ 25 milhões, a Decal pretende se alinhar ao novo perfil do mercado em Pernambuco. “Essa duplicação deve estar em compasso com a Refinaria, com foco em produtos escuros. Não apenas com a Refinaria, mas com as outras empresas que vão chegar a Suape. Queremos aumentar o leque de químicos e de óleos vegetais. O asfalto, por exemplo, é uma grande necessidade do mercado”, ressalta.
Jorge Lemos não detalha o relacionamento da empresa com a Petrobras, no que diz respeito à Refinaria Abreu e Lima, mas admite que têm conversado sobre o assunto. “Estamos em conversação. A Refinaria possui uma tancagem própria. No entanto, o recebimento da matéria-prima e o escoamento dos derivados dependem de dutos e podem se integrar ao sistema. É possível que haja bom senso e que as empresas que já atuam no complexo sejam procuradas”, aposta o gerente geral.
A Ultracargo, que também opera em Suape, está trilhando o mesmo caminho. Instalado no complexo desde 1987, o parque da empresa passou por algumas ampliações para atender a demanda do entorno. A mais recente foi a expansão em 13,6 mil metros cúbicos, em 2006, para armazenar o Mono Etileno Glicol (MEG), o que fez com que a capacidade total do parque ficasse nos atuais 53 mil metros cúbicos. O investimento foi para atender a demanda da fábrica de resinas PET da M&G.
Com foco em químicos e petroquímicos, tendo em sua cartela clientes como a Petroflex, a Ultracargo já definiu suas prioridades de investimento em Suape. “O combustível é controlado pela Petrobrás e não existe mercado específico para ele, ao contrário dos químicos”, aponta o gerente de negócios da Ultracargo no Nordeste, Helano Pereira Gomes.
Novos projetos estão sendo desenhados pelo grupo, que podem permanecer com esse foco como também atender a novos perfis, como os biocombustíveis. Hoje, o parque da empresa já armazena biodiesel e óleo degomado, que é matéria-prima para o biodiesel. “Estamos sempre dispostos a avaliar novos projetos quando surge uma demanda. Temos questões em andamento com algumas empresas”, acena Helano. Até o momento, o grupo não tem pleiteado parcerias com a Refinaria. “Ainda não tivemos nenhum contato. A Refinaria traz sua própria logística, com parque de tancagem para armazenar combustíveis”, coloca.
Novas distribuidoras devem aportar em Suape em breve, segundo adianta o presidente do porto, Fernando Bezerra Coelho. “O Terminal de Combustíveis da Paraíba - Tecop, do Grupo Oxbow, está chegando a Suape a partir de janeiro de 2008 e deverá movimentar 200 mil toneladas durante o ano. Também haverá outras cargas que chegarão para alimentar o processo de implantação da Refinaria e, sobretudo, do Estaleiro (Atlântico Sul). O forte da Refinaria vem no ano seguinte”.
Na contramão dessa corrida por ampliações e novos investimentos, está o pool de empresas distribuidoras de combustíveis, formado pela Shell, Esso, Ipiranga, BR Distribuidora e Texaco. Há 20 anos operando em Suape e com uma capacidade para armazenar 99 mil metros cúbicos de combustíveis, entre derivados de petróleo e álcool, as empresas do condomínio não sinalizam com perspectivas de investimentos no porto. O argumento, segundo administradores do pool, é que o parque já foi construído com uma proporção suficiente para atender a demanda do mercado e que, até então, não há razões para crescer mais.
Movimentação
Responsáveis pela metade do quantitativo de cargas movimentadas em Suape, os granéis líquidos devem permanecer com essa faixa de participação na balança portuária nos próximos semestres. Isso se justifica porque o porto vem diversificando a movimentação de cargas. Até novembro de 2007, foram movimentados 3.133.230 metros cúbicos de granéis líquidos pelo porto. Paralelamente, os granéis sólidos também tiveram uma movimentação expressiva, alcançando 240% de crescimento, de janeiro a outubro de 2007, em relação ao mesmo período do ano anterior, passando de 139 mil toneladas para 468 mil toneladas. “Não deve mudar muito o percentual de participação de granéis líquidos. A tendência, inclusive, é diminuir, porque o porto está diversificando a movimentação de cargas, o que é muito bom. Em 2006, movimentamos 5,3 milhões de toneladas, dos quais 2,9 milhões de líquidos. As outras cargas foram sólidos, contêineres e cargas gerais, como máquinas, equipamentos e açúcar em saco. Este ano, estamos movimentando mais minério de ferro, clínquer e escória”, explica o diretor de Gestão Portuária de Suape, Jorge Dias.
“Com início da Refinaria, vai crescer a movimentação dos granéis líquidos, porque a alimentação da Refinaria vai ser com petróleo cru” Jorge Dias, diretor de Gestão Portuária de Suape
Essa paridade entre granéis líquidos e outras cargas deve permanecer até que a Refinaria de Petróleo entre em operação. “Com o início da Refinaria, vai crescer a movimentação dos granéis líquidos, porque a alimentação da Refinaria vai ser com petróleo cru. A estimativa é que somente de produtos para essa planta, como o óleo bruto, sejam movimentados em torno de 18 a 20 milhões de metros cúbicos no primeiro ano de funcionamento, em 2011, além do que deverá sair já refinado, que é o óleo diesel”, calcula Dias.
Dois novos píers estão sendo projetados para atender essa demanda em Suape. Segundo o diretor de Novos Negócios de Suape, Sidnei Aires, os dois molhes fazem parte da infra-estrutura da Refinaria Abreu e Lima e estão orçados em R$ 240 milhões. Também será feita a dragagem para abrir um canal de acesso para navios petroleiros tipo Suezmax, no valor de R$ 80 milhões. Os recursos estão previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “O projeto básico deve ser concluído em janeiro e as obras começam em março. A previsão é que esteja pronto no final de 2009”, estima Aires.

As empresas que atuam no parque de tancagem do porto também estão otimistas com o aumento da movimentação de granéis líquidos. A Decal planeja um crescimento nas operações de até 50% sobre o resultado de 2007, que ficou em 600 mil toneladas no acumulado do ano. “Em 2008, a tendência é aumentar a movimentação porque algumas operações que estão sendo feitas em Pecém serão transferidas para Suape, por conta do navio de gás da siderúrgica (Ceará Steel) que vai tomar um dos píers”, declara Jorge Lemos. Já a Ultracargo movimentou, até o terceiro trimestre de 2007, 202 mil toneladas de produtos por Suape. Em 2008, a previsão é de um crescimento de até 60% nessa movimentação. “Isso vai acontecer porque o impacto total da ampliação feita para atender a fábrica da M&G só será sentido em 2008”, explica Helano Pereira Gomes.
Para dar vazão a esses produtos no mercado, as empresas esperam contar com o apoio de Suape, no que diz respeito à garantia de uma infra-estrutura logística que facilite a distribuição dessas cargas. O grupo Decal assinala que a malha ferroviária do porto poderia ter seu uso otimizado caso estivesse interligada à malha Sul, de responsabilidade da Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), que está com um trecho interrompido. “Nossos clientes gostariam de ter a malha Sul ativada e chegando até Maceió. Sem isso, ficamos sem poder ampliar nosso leque de operações para o mercado do Sul”, lamenta Jorge Lemos. O presidente de Suape informa que a CFN já iniciou a recuperação do trecho que vai até o litoral de Alagoas.
A interligação da malha portuária com a Transnordestina, que começa a sair do papel no trecho Missão Velha (CE) – Salgueiro (PE), também é outra carência percebida pelos investidores que querem baratear os custos com distribuição, evitando a troca de modais. Fernando Bezerra Coelho garante que o projeto está seguindo o cronograma e que vai atender às expectativas das empresas que atuam no porto. “Estou certo de que a Transnordestina é importante e não tenho a menor dúvida de que em breve chegará a Suape, complementando a infra-estrutura rodoviária e marítima, interligando Suape aos estados vizinhos”, vislumbra.
Flavio Primo Dias Terça-feira, 6 de Maio de 2008
Muito boa a matéria, nos dá uma visão mais ampla do perfil das cargas movimentadas no CIPS.
EDSON BARROS GOULART Sábado, 7 de Junho de 2008
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