
Prestes a completar um ano de mandato, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, comemora a concretização de investimentos estruturadores em Suape (a 54 km do Recife) e apresenta os primeiros resultados de sua diretriz de “esparramar” o desenvolvimento pelo interior do Estado. Eleito com 2,6 milhões de votos, o governador tem o desafio de comandar a administração de um Estado que tem 8 milhões de habitantes e o segundo PIB do Nordeste.
Aos 42 anos, Eduardo já ocupou o cargo de Ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro mandato do presidente Lula, foi deputado Estadual e Federal e atuou como Secretário da Fazenda no terceiro governo de Miguel Arraes (1994). Com a morte do avô, em 2005, assumiu a presidência nacional do PSB. Agora, concretiza o sonho de Miguel Arraes, que na sua última gestão como governador promoveu uma grande campanha para trazer a refinaria de petróleo para Pernambuco.
Nesta entrevista, que concedeu à Revista Cais do Porto.com, Eduardo fala sobre o bom momento vivido por Pernambuco e sobre o desafio de fazer a lição de casa e garantir a infra-estrutura necessária para suportar o acelerado ritmo de crescimento do Estado.
Cais do Porto - O Complexo de Suape é hoje o principal atracadouro de investimentos de Pernambuco, mas precisa receber pesados aportes em infra-estrutura para suportar esse crescimento. Qual a previsão de investimento para os próximos anos, quais serão as fontes desses recursos e onde serão aplicados?
Eduardo Campos - O Complexo Industrial Portuário de Suape começa a receber o maior volume de investimentos da sua história. Entre recursos da União e do tesouro estadual, Suape recebeu desde a sua fundação, em 28 anos, cerca de R$ 643 milhões. De janeiro deste ano até 2010, estão previstos aportes públicos de R$ 710 milhões. Em relação aos investimentos privados, os números são ainda mais significativos. Todas as empresas que se instalaram em Suape até os dias de hoje, incluindo as que já pararam de operar e as 81 que mantêm o porto como um dos que mais cresce no País, representam um investimento de aproximadamente R$ 5 bilhões. Até 2010, serão investidos mais R$ 15 bilhões. E, o mais importante, é que são investimentos em empreendimentos estruturadores, que por si só formam uma cadeia e possuem capacidade para atrair outras empresas, não necessariamente em Suape, mas com potencial para desenvolver as cidades que estão no entorno.
Cais do Porto - Como o governo do Estado está trabalhando para aumentar a oferta de gás natural? Qual a previsão de fechar um novo contrato de fornecimento com a Petrobras para atender ao mercado, diante de uma crise nacional do gás?
Eduardo Campos - O problema do fornecimento de gás natural não é de Pernambuco ou de determinado estado, é um problema nacional. É importante ressaltar, inicialmente, que conseguimos acertar, junto a Petrobras, que o contrato com a Copergás (Companhia Pernambucana de Gás Natural) fosse formalizado. O que havia, já há alguns anos, era um acordo “de boca”.
Cais do Porto E como estão essas negociações para garantir o terminal de GNL em Suape? O mercado esperava que o anúncio fosse feito na última visita do presidente Lula ao Estado, em setembro.
Eduardo Campos - Estamos em negociação, tivemos uma sinalização da própria Petrobras para que nós procurássemos parceiros para o empreendimento e é isso o que estamos fazendo. Recentemente, eu e o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fernando Bezerra Coelho, estivemos em Portugal e um dos assuntos tratados com a Galp Energia foi a participação da estatal portuguesa neste projeto. Do ponto de vista técnico, Suape tem todas as condições de abrigar mais esse empreendimento, pois possui características de hub port e uma localização perfeita para distribuir o produto para toda a região. Mas há também um componente político. Existem vários estados que pleiteiam a instalação do terminal. Nós estamos fazendo a nossa parte e esperamos que a decisão do presidente possa beneficiar Pernambuco.
Cais do Porto - Da área de 13,5 mil hectares do Complexo de Suape, restam apenas dois mil hectares para abrigar novas empresas. Qual será o critério do governo do Estado para selecionar os investimentos que se instalarão no local?
Eduardo Campos - Primeiramente, grandes investimentos, que sejam estruturadores. Por exemplo, uma montadora de automóveis, porque agrega diversas empresas satélites, que são geradoras de investimentos e de mão-de-obra. Também terão espaço assegurado empresas que se integrem à cadeia produtiva iniciada pela Petrobras, através da Refinaria e do Pólo Petroquímico. Do mesmo modo, garantiremos espaços para empresas que estejam dentro da cadeia do Estaleiro, do pólo naval, que gera uma cadeia do pólo metalmecânico. Temos áreas reservadas também para a ampliação do parque e terminais de contêineres, uma vez que Suape se caracterizará como um hub port, ou seja, um porto concentrador e distribuidor de cargas. E áreas também destinadas a granéis, tanto de origem vegetal (trigo, soja, milho, etc), como minerais, ferrosos e não ferrosos (minério de ferro, gipsita, etc), que são produtos característicos da utilização do transporte marítimo e requer áreas próximas à beira do cais. A revisão do Plano Diretor que Suape vai rever a característica global do transporte marítimo, a parte especificamente portuária, olhando para o horizonte de 2030. A gente sabe que esse tipo de transporte vai evoluir. Vamos ver também a distribuição dessas áreas em lotes industriais, de forma que se criem as cadeias de indústria e da utilização da beira de cais da maneira mais coerente possível. Pra você não estar fazendo um projeto que, no futuro, impeça outro tipo de empreendimento.
Cais do Porto - O crescimento frenético de Suape também suscita problemas na área de segurança. Que medidas e investimentos estão sendo feitos no monitoramento e aparelhamento do porto?
Eduardo Campos - Isso tudo vai ser discutido pelo Plano Diretor, com as prefeituras que estão no entorno de Suape, da forma mais clara possível, dentro da visão de Governo e do planejamento participativo. Hoje você não pode mais olhar Suape de maneira isolada, mas dentro do contexto dos municípios de Jaboatão, Cabo, Ipojuca, Moreno e Escada.
“ Hoje você não pode mais olhar Suape de maneira isolada, mas dentro do contexto dos municípios de Jaboatão, Cabo, Ipojuca, Moreno e Escada” Eduardo Campos
Cais do Porto - Hoje existem dez mil pessoas morando dentro do Complexo de Suape. O ex-governador José Mendonça Filho deixou uma lei assinada determinando que uma área de 239,5 hectares em Suape fosse doada para o chamado Projeto Morador que se constitui numa vila para abrigar esses posseiros. Como o governo do Estado pretende equacionar essa questão?
Eduardo Campos - A área foi doada, mas a lei determina que, para que as comunidades se instalem nela, se faz necessário que o Projeto Morador seja colocado em prática. Isso não foi feito pela gestão passada e o projeto está em análise pela diretoria de Suape. Nós estamos em permanente contato com representantes de todas as comunidades, procurando ouvir quais são as principais demandas e a forma que Suape e o Governo de Pernambuco, de uma forma mais ampla, pode se envolver para equacionar esses problemas.
Cais do Porto - Os municípios do entorno de Suape têm um déficit de 35 mil moradias, isso sem falar nas novas unidades habitacionais que serão necessárias para atender a demanda de trabalhadores em função dos novos projetos. O governo do Estado tem algum programa de habitação para esses municípios?
Eduardo Campos - A idéia é que Suape não seja uma área residencial, mas que exista um sistema de transporte eficiente, integrado, que as pessoas possam morar nas cidades do entorno, chegando até lá de ônibus, trem ou metrô. Algumas empresas que estão se instalando no Complexo estão em negociação com os municípios para construírem dormitórios temporários para o pessoal que vai trabalhar na fase de construção. Depois que as obras estiverem prontas, esses aparelhos seriam doados para os municípios para serem utilizados como escola, posto de saúde ou algum outro serviço. Quanto ao déficit de moradia existente, ele será atacado na lógica de programas habitacionais mantidos pelo governo, principalmente em parceria com o governo do Presidente Lula. É o caso, por exemplo, do programa Minha Casa, que melhora ou constrói residências populares em parceria com os municípios. Devemos reconhecer, por outro lado, que se trata de um problema muito sério, que nem é localizado no entorno de Suape, e que foi agravado nos últimos oito anos pela falta de investimentos no setor, enquanto predominava um impasse entre o governo do Estado e a Caixa Econômica Federal em torno das ações da Compesa.
Cais do Porto - E no setor de transporte? O que será feito para garantir a mobilidade da população? As carências também se estendem nas áreas de saúde, saneamento e educação.
Eduardo Campos - Os planos diretores dos municípios do entorno foram concluídos recentemente e a Secretaria de Planejamento do Estado, através do Condepe/Fidem, já vem desenvolvendo um trabalho conjunto com essas prefeituras que é o Território Expandido de Suape. Esse projeto enfoca cada eixo desses, transporte, moradia, esgoto, abastecimento d’água, segurança, mobilidade, juntamente com os órgãos intervenientes do Governo do Estado e do Governo Federal em alguns casos, como em relação à questão rodoviária e da expansão do sistema do metrô, que afeta uma esfera Federal. Esse trabalho fará com que os municípios possam se consorciar para buscar recursos para investimentos nessas áreas básicas.
Cais do Porto - Uma das diretrizes do governo do senhor é promover a interiorização do desenvolvimento, mas sabemos que para garantir esse projeto é preciso dotar os municípios de infra-estrutura para atrair os investimentos.
Eduardo Campos - Sim, dotar os municípios de infra-estrutura, mas, sobretudo, ter vontade política de descentralizar o desenvolvimento. Nós levamos a Perdigão a Bom Conselho e a Sadia a Vitória de Santo Antão. Agora, estamos fazendo a nossa parte para dotar Pernambuco de melhores equipamentos. Por isso, nos colocamos de forma pró-ativa em relação à construção da Ferrovia Transnordestina. Estamos dando todo o apoio para que a Copergás dê mais agilidade à construção do gasoduto que vai até Caruaru, bem como o trabalho de recuperação dos Distritos Industriais, que já começou em Petrolina.
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